Suave Oculto Sutil

Nirodha, antídoto inato

Leva tempo descobrir que o que vejo lá fora é mero reflexo de mim mesmo, manifestado, tornado real, ao vivo e a cores, para que eu possa enxergar o que está dentro de mim.

Nirodha. Termo sânscrito, aqui na sua grafia adaptada, conceito que está de fato no cerne de uma prática de yoga.  O misterioso encontro consigo mesmo, o tão falado autoconhecimento, é como espiar a criança interior, aquela criança que nem sempre, ou às vezes quase nunca, pode expressar-se como lhe ditava o coração. Ia sendo ajeitada, moldada pelo seu entorno, até que um certo dia pudesse integrar-se, ou não, na convivência socialmente aceita. Implantes recebidos, bons e maus, verdadeiros e falsos, aceitos e rejeitados, estabeleceu-se esse ser na “câmara do eco”, a pequena mente.

Minguada fatia da Grande Mente Universal, a pequena mente humana é, não obstante, poderosa e frágil ao mesmo tempo. Poderosa, porque criativa. Frágil porque dominada pelos implantes recebidos, fatalmente criados a partir de laços emocionais, que passam a comandar o pensamento. Poder e fragilidade são guiados por uma entidade processadora e analisadora, um ego que recebeu programas, necessários, segundo crenças e conceitos seculares arraigados, para o bom funcionamento de uma vida humana. É na reta percepção dessas duas qualidades que está montado o palco das nossas histórias de sucesso e de fracasso, de alegrias e de tristezas, de comunhão e de isolamento, de medo e de amor.

O palco vem montado, nu e cru. E a pequena mente, aquela que é criativa, pode decorá-lo a seu bel prazer, atraindo e repelindo cenários e personagens. No entanto, a pequena mente, naquela outra ponta que é frágil e que acredita em tudo que pensa, cria ciladas para si mesmo, inventando certezas para decidir e escolher.

Ciladas são aparentemente indesejáveis e leva tempo para aprender a dissolver as aparências e transmutá-las em aprendizados. Leva tempo descobrir que o que vejo lá fora é mero reflexo de mim mesmo, manifestado, tornado real, ao vivo e a cores, para que eu possa enxergar o que está dentro de mim.

Disciplinar a pequena mente é portanto uma faca de dois gumes, é caminhar sobre a corda bamba. Aceitar essa sua função dupla face é tarefa das mais complicadas e passa por longos períodos de dissonância entre uma e outra, a dissonância cognitiva que se nega a perceber o que não cabe no condicionamento, na expectativa, no conhecimento que tranca possibilidades.

A dor é por vezes inevitável, mas o sofrimento pode tornar-se opcional, quando aprendemos o truque: suspender o juízo, abster-se de opinar, e organizar mentalmente essa ampla paleta de pontos de vista, todos eles interessantes e merecedores de uma contemplação honesta. E leve. Aceitar que literalmente nada é inaceitável.

É radical. Mas posso ser gentil comigo mesma, começar com simplicidade, suavemente contornando o que me diz a pequena mente que flutua e dispara em todas as direções ao sabor do que lhe trazem os cinco sentidos e as memórias, para ser processado, analisado e organizado. Contornando esse processamento, que se tornou automático à medida que os anos passaram, posso esmerar a escuta e silenciar a fala.

Começo por aí. É um bom começo que não sobrecarrega. Desligo a TV, o celular, suavizo a luz. Fecho os olhos para esmerar a escuta; silencio a fala. Nirodha, pacifico a mente para abrir a consciência e ouvir o coração. Literalmente.