Suave Oculto Sutil

Ofensa e culpa

Como tudo nesta dimensão polarizada, a ofensa só existe através dos opostos: carece de um ofensor e de um ofendido que se permite ser ofendido. Sem ele, a ofensa se transforma num mero e interessante ponto de vista

Eu me ofendi. Quando prestamos atenção à linguagem, muitas coisas podem clarear. Prestar atenção é uma riqueza na lida diária! Quando EU ME OFENDO, quero dizer que ouvi algo ou presenciei um evento e que isso me transtornou. E a nossa linguagem expressou corretamente: EU ME OFENDI, a mim mesmo. Dei permissão para que uma palavra, uma ação, um evento proveniente de fora de mim, me atingisse e me perturbasse.

No entanto, “eu nunca estou transtornado pelos motivos que imagino” (Um Curso em Milagres, Livro de Exercícios, lição 5).

Tantas possibilidades de escapar dessa armadilha. A menos gentil seria eu dar-me conta de que, afinal, o mal educado é o ofensor. Estaria eu tão altruisticamente preocupada com essa pessoa, a ponto de desequilibrar-me emocionalmente porque ela cometeu uma indelicadeza? Seguindo por essa trilha (desde que eu queira realmente me sentir melhor!), posso aprofundar o olhar. Houve real intenção de ofensa? Existe a possibilidade dessa frase ou atitude pertencer tão somente ao universo psicológico do ofensor? Como saber se foi dirigida a mim, e mais, feita para me atingir? E de onde emerge essa ideia, e mais, essa certeza, de que alguém queira ferir-me, senão de um sentimento profundo, oculto e velado e guardado a sete chaves, de uma culpa insana que me habita e me ameaça com alguma punição… melhor terceirizá-la!

Não, a culpa não é minha, ela só pode estar fora de mim, no outro, nas circunstâncias, no destino que, afinal, não controlo. Sou vítima pois fui ofendida, e é assim que me sinto e uso todos os argumentos de que disponho para justificar essa visão de mundo. Desde a infância, aprendi a clamar “não foi por minha culpa”, para anular a ameaça de castigo. De onde me apareceu essa expectativa que me assusta? Assunto para outro tipo de reflexão.

Esse mantra me leva para um mundo disfuncional, no qual se criaram n jeitinhos para não assumir uma culpa. Sem nos dar conta, exijo tudo do outro: que seja gentil e bem educado, ético e sobretudo politicamente correto, o que significa expressar-se mediante eufemismos e construções de linguagem rebuscadas, tudo para que não haja ofensa.

Entretanto, como tudo nesta dimensão polarizada, a ofensa só existe através dos opostos: carece de um ofensor que ofende e de um ofendido que se permite ser ofendido. Sem ele, a ofensa se transforma num mero e interessante ponto de vista.

Se escolho perceber-me ofendida, logo estarei ressentida, e o ressentimento ofusca a minha luz, autonomia, soberania do ser. Posso escolher de novo e de novo e de novo, e trocar culpa por responsabilidade.

Construo mais um pedacinho de paz no planeta.