Suave Oculto Sutil

SO HAM

O inspirar é, de fato, a retração em direção ao espírito para literalmente buscar inspiração. É um grande recolhimento, sono ou repouso cósmico, pralaya, para que então a expiração manifeste a criação, individual ou coletiva, o manvantara. Com cada nova inspiração trago de volta a criação para espiritualizá-la

SO HAM, o som que evoca o EU SOU. Eis o mahavakya, ou Grande Som, segundo os Upanishads.

 

SO HAM, EU SOU AQUILO, significa que não sou, num nível profundo, aquilo que penso ser. AQUILO: percepção de si consciente purificada que buscamos alcançar. Estou enredada no fenomênico, na aparência. EU SOU aquilo que permanece quando o corpo e a mente passaram, EU SOU consciência imutável, infinita e eterna.

Posso pensar assim: o inspirar é, de fato, a retração em direção ao espírito para literalmente buscar inspiração. No contexto cósmico, é o grande recolhimento, sono ou repouso uterino, pralaya, que precede a expiração que manifesta a criação, individual ou coletiva, o manvantara. E a cada nova inspiração trago de volta à sua origem divina a criação, para espiritualizá-la de maneira mais e mais consciente. Nesse simples respirar, tão corriqueiro e indispensável para a vida, está o objetivo fundamental do yoga, que é atrelar a manifestação física no espaço e no tempo ao grande ato primordial de criação que o espírito emana.

A respiração que entoa mentalmente o SO HAM é a enunciação silenciosa e constante de um mantra que proclama que não sou aquilo que muda e decai, e sim consciência primordial, permanente, intocada e pura. Começo pela expiração:

  • Expirando, pelo nariz, HAM, mentalizo um som aspirado
  • Inspirando, pelo nariz, SO, mentalizo um som sibilante
  • Com os pulmões cheios, a respiração suspensa em kumbhaka por alguns instantes, busco o contato com a batida do coração

Nesse silêncio pulmonar de kumbhaka encontro a paz do EU SOU que significa “Deus em mim É”.

O iniciante busca o perfeito estado de atenção por meio da pura intenção, porque o relaxamento físico que a técnica proporciona frequentemente o leva a adormecer. Inversamente, se o praticante puder manter a atenção continuada, começará a perceber-se pulsando nitidamente, o que só é possível em relaxamento profundo. Essa pulsação tem efeito restaurador sobre cada célula do corpo, além de abrir os canais de uma expansão de consciência:

    • limpo negatividades
    • acalmo o coração e as emoções
  • manifesto energias de cura e a presença do Divino em ação
  • percebo o contato com o respirar na percepção das sensações de expansão e contração 
  • inspiro frescor
  • expiro calor suave
  • teço uma respiração na outra, sem esforço
  • percebo as sensações como lugar de descanso
  • mentalmente emito so na inspiração
  • mentalmente emito ham na expiração

e repouso nesse som, que passa a preencher todo o espaço sutil da mente/consciência.

São 21.606 respirações a cada dia, dizem os velhos rishis observadores. O corpo entoa esse mantra 21.606 vezes ao dia, soham ou hamsa. Quando me permito perceber e pulsar, recebo saúde. Sem esforço. As células vibram, as mitocôndrias se renovam, os telômeros escapam do fatal encurtamento que provoca o envelhecimento.

Segundo os mestres, manifesta-se nessa prática a percepção plena da unidade de corpo e alma; sentir o ser humano dentro de Deus e Deus dentro do ser humano nos aproxima da consciência crística. O inspirar que busca inspiração divina não mais se separa do expirar que é a manifestação humana, SO e HAM são um. Dois movimentos que se tornam um, eis mais um aspecto do próprio estado de YOGA.