Quando penso em medo, surge a imagem de um cacto na minha tela mental. Medo é um pouco assim, como um cacto inóspito, forte, resistente e rígido no seu solo árido, ainda assim perenemente alimentado como que do nada, de uma ilusão construída; sobrevive graças à sua capacidade de armazenar águas escuras e estagnadas. O medo visceral é o próprio apego à vida biológica tão logo nascemos para a luz no sopro do prana e mergulhamos na cegueira da identificação com um corpo, o nosso, que se relaciona com outros corpos para sobreviver, que se lança à busca de alimento, que necessita conquistar o seu espaço seguro num determinado segmento do tempo.
O medo se desdobra, se transforma em muitos, sempre bem justificados. É resistência ao fluxo natural da vida, a minha e a do outro, e também origem de emoções, escuras, tenebrosas, contraídas, perdidas do amor, esquecidas do prana luminoso que tudo sustenta. Entretanto, Por mais tormentosas que possam chegar a ser, emoções são energia em movimento. Movimento ainda pesado e inerte, que carece de refinamento, que afunda e arrasta, pede prazer e saciedade, pede posse e segurança.
No yoga falamos em tamas, qualidade biológica inerente à matéria, o guna que cuida da sobrevivência e da sua conservação, na inércia e na preguiça do apego. Tamas consome, devora, acumula. Torna real a identificação com a matéria, com a physis, como se dizia nos primórdios do pensamento filosófico pré-socrático, com a corporeidade que nos serve para explorar e experimentar.
Eis que as leis cósmicas não se detêm em lugar algum do espaço ou do tempo. A polaridade inerente ao todo logo entra em ação, como semente de um novo impulso, um novo movimento em oposição, traduzido numa nova emoção que por vezes atropela: eis que surge a raiva.
Raiva, eu?
Nessa travessia de portal em portal, a raiva agita, sim, e muito, para que da estagnação paralisante do medo mais profundo, brote a qualidade do guna rajas, a corajosa conquista do viver em direção à jornada do herói, à experiência das muitas etapas da consciência de ser.
Todavia, com a posse da conquista desejada, e o prazer que dela decorre, temos, como efeito colateral imediato, o novo apego nutrido na repetição prazerosa. Não basta experimentar; se foi sucesso, a química cerebral dispara, forma-se o caminho neural que mantém viva a chama do desejo. De quebra, mais uma enxurrada de emoções, cobiça, inveja, ciúme, quiçá mais raiva. E mais um medo, o da perda do que foi conquistado. Sofro. Mais um obstáculo à paz interior.
Ainda estou longe da percepção salvadora de que sou criação divina, ser infinito imbuído de tanto poder insuspeitado, que construí todo esse panorama tenebroso de livre e espontânea vontade, para a salvaguarda ilusória de merecer a vida, que é também pura alegria e amor. Paradoxo?
Por vezes, desconfio que posso sim percebê-lo, o divino, em meio a essa montanha russa agitada que assusta. É quando reconheço a paz de sattva, o terceiro guna, que harmoniza e reconcilia os extremos. Ínfimo ponto de equilíbrio neutro, suspenso entre dois movimentos respiratórios, luz tênue que brilha, relaxa, desperta para a paz, num amoroso reset dos corpos que me constituem e que nesse breve e glorioso momento fluem em uníssono.
Se aprofundar o olhar, já estou nesse lugar, em que o medo dá espaço para o amor, mas ainda não me permito saber porque não parece confiável.
Por ora, torno a recair em avidya, essa ignorante identificação cega com um construto mental ao qual atribuo significado e verdade, e que tem medo de morrer.
Mas fica aquele gostinho de quero mais…