Ao longo do tempo, tenho voltado os meus pensamentos com crescente curiosidade para as coisas que não vejo com os olhos da carne, para o velado, o não-óbvio que se manifesta com delicadeza hesitante como luz tênue que reveste os contornos do denso, e que sempre surpreende.
Contemplando uma alegre chama de vela dançarina, reluzente e cintilante, durante uma maravilhosa prática denominada trataka, que propõe abster-se de piscar durante a contemplação, induzindo assim ao relaxamento e consequente desfocar do olhar, encanto-me ao reconhecer sem nenhum esforço as cores do arco-íris desdobradas ao redor das bordas tremulantes da chama. Ao cabo de alguns minutos de prática, fecho os olhos para assistir ao espetáculo interno que se desdobra: a chama da vela em negativo, o contorno perfeito espelhado em modo sombra, verdadeiro buraco negro que espelha quiçá o caráter ilusório da imagem e que ameaça sugar o observador para um misterioso universo paralelo, imensidão que contém o Todo de Tudo e o Tudo do Todo. Será que foi ali que a inocente e feliz chama da vela teve a sua origem?
O pensamento se reaviva e me surge a analogia do iceberg, aquela pontinha inocente e perfeitamente visível e captável, que aparentemente tudo contém, sustentada no entanto por uma imensa sombra invisível e traiçoeira capaz de fazer naufragar o navegante incauto.
A chama da vela e a pontinha do iceberg tem em comum a sua perfeita acessibilidade aos sentidos da carne. É o reino do sabido, experimentado, pesquisado, oferecendo a certeza do calor e o seu oposto, temperaturas extremas e mensuráveis. Ah, as certezas, que quero abraçar para sempre e nelas me enrolar como num cobertor quentinho.
Todavia, é o subconsciente, pasmem, o nosso manancial de alegria, abundância e glória, mina de ouro de inteligência infinita e de amor sem fronteiras, suporte de uso diário todo-poderoso. Inato e presente em cada ser humano que navega os tempos incertos e tão contraditórios como esse nosso século 21, aprender a acessá-lo é o segredo de uma vida abençoada, de completude e realizações.
Para tanto, o mistério é justamente o uso do olhar desfocado que revela as beiradas da aparente realidade física na qual tanto confiamos, e que na verdade não passa de ilusão por ser impermanente e transitória, não é? Hoje estou bem, amanhã nem tanto. Aceitar, entregar e confiar é o pulo do gato certeiro para equilibrar-se de novo e de novo e de novo. Os sinais mensageiros, vindos não se sabe de onde mesmo, se manifestam no corpo, na nossa biologia assombrosa, e ainda assim não os percebemos como tais.
Desfoco o olhar num ato de fé, aquela verdadeira e inabalável, denominada shraddah segundo a ciência védica, que em algumas escrituras é descrita como sendo uma mãe carinhosa, cheia de cuidados e essencialmente protetora. Fica fácil assim imaginar que temos a Grande Mãe Cósmica, Sophia com toda a sua sabedoria inata, logo ali, à nossa disposição, embutida no subconsciente como graça divina, guiando e protegendo a nossa biologia.
No silêncio mental da contemplação da vela, o olhar sem foco e a escuta indefinida se aguçam. Paradoxo, ou integração…