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Suave Oculto Sutil

A violência e o morrer

Asmita, essa percepção aflitiva do não saber que estou distante de “mim” e nem o percebo, que fui me separando de tudo o mais, criou divisas bem estabelecidas.

O que impede a paz, de onde vem a violência, senão de mim… Mas, qual “mim”? Asmita, essa percepção aflitiva do não saber que estou distante de “mim” e nem o percebo, que fui me separando de tudo o mais, criou divisas bem estabelecidas. Divisas evoluem para fronteiras, que têm de ser defendidas.

Fronteiras criam estados de guerra e campos de batalha, e não só no sentido figurado. Fronteiras fazem com que trincheiras ilusórias sejam erguidas no campo infinito dos corpos sutis que sou incapaz de reconhecer, capturada que fui pelos cinco sentidos: joguete de emoções que alimentam pensamentos, que alimentam novas emoções, que disparam a bioquímica do corpo para serem manifestadas no denso. O estado de guerra está dentro de mim, porque subliminarmente “estou em pecado”, essa carga ameaçadora de culpa que envenena e produz o medo e em última instância o pânico.

A minha identidade e segurança aparente extraio de raga e dvesha: defendo com veemência o que gosto e não gosto, justificando a escolha, pronta para condenar e atacar, por mais que me esforce por utilizar roupagens educadas e socialmente aceitas, além de argumentos válidos – segundo quais valores? – para externar a opinião e o julgamento. Na violência subliminar para comigo e para com o outro vou secando a fluidez do curso da vida, polarizo, porque o que é branco não pode ser preto: pequenez insana. Descarto a possibilidade do paradoxo que permitiria fazer brotar o preto do branco e vice-versa, e assim fazer brotar o novo, como nos ensina o sábio símbolo do Tao.

O terreno desconhecido ameaça, amedronta, não cabe no aperto das trincheiras erguidas no inferno pessoal da mente que preza opiniões instruídas, crenças estabelecidas e certezas absolutas. A paisagem mental assim cristalizada é o que projeto no outro e no entorno. Me agarro àquele meu jeito, é assim que quero me perpetuar na síndrome de Gabriela e garantir a sobrevida em estado de abinivesha, perturbação muito sutil que Patanjali define como pertencimento, ou seja, a sensação de ser aceito, e com o consequente apego à vida.

Assim, não percebo que o morrer não passa do desmoronamento de um construto imaginário que reduz a pó a sustentação precária de uma imagem desligada do propósito da alma, o “mim”. Aquele “mim”, que não nasce nem morre, apagado e diminuído pela ausência do sopro contínuo e revitalizador de um SIM incondicional à vida de todos em Um, aquele SIM sem trincheiras, em que reconheço o próprio “mim” no Outro, replicado esplendorosamente na multiplicidade colorida e alegre de infinitas realidades paralelas.