Suave Oculto Sutil

O projeto que projeto

Na aceitação, ou não, do evento que me impacta pelos sentidos, está o grande corte do livre arbítrio, a pequenina nesga de liberdade, a chance de viver uma vida grande.

Busco a relação desde cedo, titubeante e sem clareza, só quero o acolhimento, estar entre iguais, ser aceito por todos e pelo totalidade deste mundo tal qual sou ensinada a percebê-lo, com essas cores e com esses valores. Vou arquitetando o meu projeto, cercada de corpos, coisas, relações, tudo ocupando o espaço ao meu redor, tudo ocupando o tempo de que disponho. Aparentemente, tudo muito definido. Ali consigo me mover. Pelo menos por um tempo. É o meu paradigma, a minha âncora.

O que me guia é o que sinto, que se torna pensamento que retroalimenta o que sinto. Torna-se padrão de hábito, círculo vicioso difícil de romper. No meio da multidão lá fora, que absorvo com os cinco sentidos, vou compondo uma multidão dentro de mim também. A multidão esconde quem sou. Quem seria eu sem pai, mãe, companheiro, professor, amante, amigo, inimigo, sócio, carreira, status, tarefas, deveres, posses, atributos, males e enfermidades do corpo ou até da mente? Eis a multidão que me soa familiar, que me confere identidade, onde há o conforto de estar pisando em solo conhecido, e atenção! que guia o que percebo. E é somente o que percebo que me permite viver a experiência. E a experiência reforça as minhas certezas. Fecha-se o circuito, trava o cadeado. Cadê a chave?

Na aceitação, ou não, do evento que me impacta pelos sentidos, está o grande corte do livre arbítrio, a pequenina nesga de liberdade, a chance de viver uma vida grande. A chave. Como ver e ouvir corretamente, se a multidão barulhenta na minha cabeça já grita: é por aqui, é desse jeito, é consenso, está provado! O futuro se afigura garantido, é por aí que vou. Ouço sem ouvir, já preparando a minha resposta certeira. Eis que projeto o meu projeto construído, formal e artificial, uma natureza que adquiri sem que disso me desse conta, a minha identidade aparente, numa realidade que continuo arquitetando para tê-la disponível, conhecida, confortável e segura. Dessa maneira, estou absorvida nas flutuações da mente habitual com suas histórias e dramas, necessariamente reagindo, em julgamento compulsivo de tudo o que não cabe ali. Está nos Sutras, I, 4: estou acorrentado ao que já conheço.

Se vislumbro algo desconhecido, me assusto. Busco me proteger, o meu construto me persegue, a minha identidade fica pequena, dependendo do que gosto e ao que me apego, que é raga, ou do que não gosto e rejeito com veemência, que é dvesha. Barreiras poderosas, às quais vem se juntar a realidade da ação do karma acumulado, as tendências latentes do sancita karma, e as circunstâncias produzidas pela ação do prarabdha karma. A minha identidade se cristaliza no hábito, na imagem; vivo no conhecido e na colheita desse karma que se manifesta a cada passo.

O conhecido me trai, no entanto. Faz surgir em mim a vítima. Porque o que vejo lá fora não pode ser culpa minha! Esse estado, carrego-o vida afora, até aprender, a duras penas, a prestar atenção no sussurro que habita aquela pequenina nesga de liberdade e consciência: lembra? Fui eu que travei o cadeado. E a chave? Sou eu.