Suave Oculto Sutil

A certeza incerta do despertar

O despertar sempre está, na luz não-local, ele sempre é, no presente sem tempo. Do nada, abre-se a possibilidade do acesso a esse estado de saber que sei, porque nele habito sem saber.

Despertar: pela graça, por habilidade, por mérito? Envolve esforço, circunstância, transformação? O que muda? Inquietação daqueles cujas circunstâncias os impelem a abrir um olho, tendo se perguntado a que vieram, e por que experimentam o que experimentam ao longo da existência. A indagação essencial de Hamlet, logo ali no século 17, SER ou… não ser?

Inseridos numa sociedade que queremos ordenada, inadvertidamente nos deparamos com o caos. Treinados que somos em resolver problemas, educados para encontrar soluções que façam sentido, cresce o debate de buscadores sinceros, a dúvida sobre os acertos, o espanto com relação aos erros, e também a angústia. Retirar-se para algum lugar, recompor-se por meio de abluções, dietas e exercícios, rezar pelo download de uma boa dose de bom senso, ou meditar sem trégua à sombra de uma grande figueira na firme e determinada resolução de não arredar pé até entender? E entender o quê?

Aquilo que ilumina parece algo longínquo e inacessível, reservado a grandes Espíritos de Luz, Gautama Buda o Desperto, Jesus Cristo o Ungido, e tantos outros. No entanto, o despertar não “acontece”. Ele sempre está, na luz não-local, ele sempre é, no presente sem tempo. Do nada, abre-se a possibilidade do acesso a esse estado de saber que sei, porque nele habito sem saber. Nada mais é preciso do que transferir o foco da atenção que me amarra à mente condicionada, para a totalidade do que posso escolher, receber e ser. Na liberdade que ali se descortina, dilui-se o medo.

Estou desperto quando sei de mim, reconheço e acolho esse universo mental de pensamentos, sentimentos e emoções que provocam as reações aparentemente indomáveis, os vrittis, segundo Patanjali, que fazem parte de mim e que brotam de algum lugar muito espaçoso que imagino desconhecer. Não importa. Como ser humano estou sujeito a um sem número de impressões e implantes que me distraem: raiva e culpa, vergonha e arrependimento, dúvida e medo, tristeza e ciúme, cobiça e inveja; mas também, na outra ponta, entusiasmo e alegria, aceitação e apreciação, paciência e gentileza, compaixão e generosidade, paz e amor. Tantos estados d’alma que me são familiares, nesse rico vaivém que é a vida com os seus picos e vales.

O despertar no entanto é subjacente à totalidade dessa agitação que parece não querer cessar: é faculdade inata, que brota suavemente quando me quedo quieta e por um momento não culpo nem julgo esses estados d’alma nem em mim, nem no outro, já que os dividimos; quando abro mão de projetar no outro conteúdos que são de minha exclusiva criação.

Projeção é o que leva aos mal-entendidos sorrateiros que envenenam relacionamentos e contextos. É a percepção errônea, exclusivamente minha, sem que eu possa aceitá-la como sendo minha. É o vritti que Patanjali classifica como viparyaya, distorção de um fato por não fazer parte do construto da minha própria realidade, com o qual me identifico. Vira sombra.

Esse universo mental e muitos outros universos também, fluem através de mim eternamente, desde que eu me abra para a possibilidade de permitir o fluxo da onda que é o Tudo no Todo. Ela descortina riqueza inimaginável de opções e potenciais que me permitem formular perguntas sobre quais e quantas possibilidades estão ali à minha espera. É a resposta que dou que me acorrenta, transformando-se em partícula, fato, evento consumado. Posso permitir-me permanecer acorrentado, se assim o escolher, mas se sei de mim, posso também dissolver os grilhões, lançar um novo olhar à minha volta e fazer a indagação libertadora, de novo e de novo: o que mais é possível? Na atenção intencionada, navego a onda infinita de surpresas insuspeitadas. Permito-me criar respostas em série para logo em seguida vislumbrar nova dádiva, novo talento a ser explorado.

O acesso a esse tesouro se descortina quando passo a aceitar e perdoar em mim a minha própria disposição condicionada do analisar, comparar, criticar, julgar e rejeitar o outro nas minhas interações. Ao entender a mim mesma, abro a porta para o outro, que espelha para mim o quão pouco me aceito.

Obrigada, “outro”, por me mostrar! Sinto muito, aceito e aprecio você, gratidão! Traga-me mais…