Suave Oculto Sutil

A dimensão oculta do asana

Esses dias, ocorreu-me fazer um balanço dos meus 65 anos de prática de yoga.

Esses dias, ocorreu-me fazer um balanço dos meus 65 anos de prática de yoga. Ela, a prática, não foi ininterrupta, mas ainda assim humanamente consistente o bastante para fazer jus ao que Patanjali, o grande codificador dessa tradição milenar, propõe como um dos pilares do caminho: abhyasa, prática assídua e focada, mantida por um longo tempo. A ideia por trás desse ensinamento, é promover o apaziguamento do constante turbilhão mental que assola boa parte da humanidade.

O objetivo sumário da prática como a vejo nos dias de hoje, nos chega muito a propósito: serenar e alinhar a reatividade da mente para que da reação bruta, impensada e inconsciente, comandada por tendência e circunstância, brote, no cotidiano miúdo, a ação inteligente que se reconhece no outro e no Todo. Eis, resumidinha, uma possível definição do yoga.

E para tanto, sim, é sábio começar pelo corpo, que abriga, nos seus complexos aspectos biológicos, o repositório inconsciente mental, emocional e energético através do qual, bem ou mal, nos comunicamos com o mundo.

São inúmeros os desvios e contornos que nos aparecem ao longo da vida. Ou melhor dito, que escolhemos atrair por meio da qualidade da vibração do momento. Apurar e lavrar o corpo, essa forma física espantosa, verdadeiro milagre biológico, convenhamos, que nos reveste e acolhe nessa passagem fugaz pelo planeta, começa a não mais fazer tanto sentido com o passar dos anos.

Sim, o corpo físico, ora prezado e cuidado, ora ignorado e maltratado, não passa de uma representação do que o espírito, através da alma, intenciona experimentar a cada uma das incontáveis vindas. Pertence à matéria esse invólucro, sujeito às leis da física de Newton, e assim, à inexorável lei da entropia.

Ao fim e ao cabo de muitas décadas, eis que essa lei da entropia se torna claramente perceptível aos olhos da carne e do mundo. Recorro a Patanjali e fico espantada: dos quase 200 sutras desdobrando para nós a ciência do yoga, ele dedica apenas 3 à prática de asana, as mui amadas posturas que tanto se busca aperfeiçoar, fazendo-as caber em modelos idealizados, às vezes às custas de uma perda de saúde e bem estar aparentemente inexplicável.

Deixo Patanjali falar, numa tradução que prezo, que é a do meu primeiro mestre de sutras, o professor Carlos Eduardo Barbosa:

“Firme e confortável é o assento (asana), pelo relaxamento dos esforços e pelo encontro com o que é infinito. Daí não ser o yogue oprimido pela dualidade.” (Sutras II, 46, 47, 48)

Encontro com o que é infinito… Puro espanto, profecia misteriosa e sedutora. De onde viemos e para onde vamos: vale muito a indagação. E o yoga mais uma vez responde, sem titubear: à prática esforçada e dedicada segue-se inevitavelmente o desapego, a outra perna, o vairagya, no relaxamento do esforço, para que o que foi conquistado seja oferecido à expansão de uma consciência que adquire fluidez no caminho do retorno às origens. E a prática dedicada torna a repetir-se, já agora numa oitava mais elevada e sutil. E, pasmem, muito menos penosa.