Seguidora teimosa dos Yogasutras de Patanjali que sou, repetidamente procurei esclarecer, para mim e para quem quisesse ouvir, por que teria ele dedicado apenas três dos 196 sutras ao asana, à postura física, tão valorizada no mundo ocidental que conhecemos, mundo esse que, tendo abraçado com bastante entusiasmo essa prática, frequentemente a equipara a outras modalidades de manutenção de forma física. Chegamos ao ponto de uma bizarra e felizmente mal sucedida tentativa de enquadrar instrutores de yoga no “sistema”, que imaginava obrigá-los a obter registro no Conselho Federal de Educação Física.
Descrevendo o caminho do praticante no segundo capítulo, o Sadhana Pada, Patanjali se ocupa primordialmente da sua formação ética. Somente após discorrer sobre o mundo interior sutil do praticante e sobre a sua relação com o mundo exterior que o rodeia, é que o mestre pontua em três frases, já quase ao final do capítulo, que o “assento”, tradução literal de asana, comumente compreendido como postura corporal, se torne firme e confortável, sem esforço, propiciando o encontro com o infinito para que o praticante possa não ser distraído pela dualidade ilusória do mundo em que escolhemos encarnar.
É milagroso: cada sociedade encontra nos Sutras o que necessita. Assim, nós ocidentais, perpetradores de uma civilização que priorizou o mundo da matéria e da tecnologia, presos a esse paradigma e nos perguntando onde foi que erramos, encontramos sim o portal correto de entrada para um profundo questionamento de uma sociedade que ameaça esquecer o poder do coração.
Abertura para o infinito, como propõe Patanjali, o yoga de fato não requer um corpo impecável, podendo ser praticado, na sua essência, sem exigências de capacidade física. Por outro lado, fixados que somos na excelência de atributos físicos e na dificuldade de encarar um bom envelhecimento, tendemos a priorizar a boa forma e uma aparência ideologizada fundamentada na comparação, o que pode levar a escolhas equivocadas nocivas ao corpo, às emoções e à mente.
Que se pratique então a postura, com o suporte do bom respirar, e já interiorizando o objetivo: estabilizar a mente, sentir-se confortável no próprio corpo, aceitando-o tal como ele é na sua essência, silenciar os sentidos gulosos voltados para o exterior, apaziguar as emoções, para encontrar o conforto dentro de si mesmo, que é o único lugar real e verdadeiro, aquele que nos proporciona o mundo que experimentamos.
Sim, porque a mais contemporânea das ciências confirma, mas ainda são poucos que escutam de verdade: o observador determina aquilo que ele observa, segundo o conteúdo que permite fazer morada na sua mente. É quando o coração aplaude. Na grata aceitação do próprio corpo-mente, então, milagrosamente o mundo nos devolve a paz: o Bom, o Belo e o Verdadeiro, como já dizia Platão milênios atrás.
Eis o poder que o yoga proporciona, na sua definição fundamental que significa atrelamento ou união: trazer o Céu, que crio como paisagem mental, para a Terra, o mundo que habito. Através do asana, sim, postura-portal que vem revelar na sua esteira muitos outros milagres.
Jesus Cristo, o yogue perfeito, afirma, no seu Curso em Milagres, que chegará o tempo em que Céu e Terra deixarão de existir, porque se tornaram uma coisa só.