Atha é uma parada respiratória, um corte, a suspensão de tudo. Quarentena. Aquela retração das águas do mar após a onda ter morrido na praia. E agora José, diria o poeta. O que mais é possível, e que não permiti que surgisse no meu radar?
Atha, eis aqui, eis-me chegando à beira do buraco negro, esse vazio que sei carregado de emanações desconhecidas, sem eira nem beira. Cheguei de algum lugar. Que lugar foi esse e por que estou aqui, a respiração suspensa, a mente travando, exausta, de tanto ter passado milênios derramando-me e morrendo na praia?
Mal ouso respirar, e nem a fé que me sustentava dá conta do peso que me tornei, cheia de opinião e julgamento. E a esperança? Não é mais do que aquela espiga de milho balançando ao sabor do trote da montaria, justo à frente dos seus olhos, convite esperto para fazê-la continuar trotando sem descanso e sem retorno.
É assim que Patanjali abre os seus Yogasutras: Atha yoganusasanam. O que é? Oportunidade de trocar de linha do tempo? Chamado para criar o que realmente me interessa? Ancorados todos por algum tempo num espaço sonhado que é o corpo físico, que energia emanamos de fato sem desconfiar?
Busco a mim mesma, aquela que de tanto buscar lá fora esqueci cá dentro. Posso mudar a direção do meu olhar, assim, fácil, como se do buraco negro surgisse o amanhecer auspicioso e rosado que aquece o casulo e o faz romper-se. A lagartinha devorou o que podia e não podia digerir, teve de recolher-se para descobrir que conhecer é apenas travessia incerta para o desconhecido. E aprendeu o equilíbrio do voo assim, num estalar dos dedos, batendo asas, porque o medo vibra baixo e cega.
Atha yoganusasanam, eis aqui o yoga se descortinando.