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Suave Oculto Sutil

Durmo e o meu corpo se organiza

Insone, fiquei curiosa e passei a buscar alguma luz para clarear essa abençoada escuridão em que passamos praticamente um terço das nossas vidas

Sendo a noite escura, e se permitirmos que ela seja efetivamente escura, o fenômeno misterioso que chamamos de sono ora ativa o tesouro da nossa imaginação para o bem e para o mal, ora nos faz mergulhar na inconsciência do aparente nada. Insone, fiquei curiosa e passei a buscar alguma luz para clarear essa abençoada escuridão em que passamos praticamente um terço das nossas vidas. Só esse fato já deveria chamar-nos a atenção.

Descubro cada vez mais que o assunto, aparentemente corriqueiro – tipo estou cansada, vou dormir, dê-me licença – tem um potencial de desdobramento amplo, sendo também objeto de pesquisa científica, e não só na área da neurociência.

Não me sinto qualificada para responder a questão, mas reflexões minhas e de outros ficam sim gravados no cinturão mental ao qual a humanidade tem acesso, e talvez incentivem o surgimento de novas perspectivas e saberes a serem disponibilizados para a evolução coletiva.

Aqui alguns dados oriundos da perspectiva dos campos sutis: ao adormecer, o corpo físico, no yoga chamado de annamyakosha, dispõe da sua inseparável duplicação companheira, no yoga chamado de pranamayakosha, corpo energético ou camada vital invisível, para lhe sustentar a vida, reparando e renovando os sistemas. Medicinas antigas reconhecem nesse corpo energético, por vezes chamado também de etérico, a interface sutil cujos efeitos são perfeitamente estudados. A medicina tradicional chinesa trabalha ativamente com os meridianos e os pontos da acupuntura, o ayurveda acessa a rede dos nadis e os pontos chamados marmas. Oferecem terapias e práticas eficazes com o objetivo de desbloquear e restaurar o fluxo da vida em direção à saúde original.

As tradições milenares sabem que, se a camada energética se dissolver, no aparente e misterioso processo do morrer, o que resta é a decomposição do invólucro material, campo de estudo das ciências naturais e da medicina convencional. 

O que me levou a abordar o assunto, neste espaço de leitura, foi a minha surpresa ao ver o sono, ou nidra em sânsrito, ser classificado como vritti nos Yoga Sutras de Patanjali, aos quais sempre recorro quando me surgem dúvidas existenciais. Vrittis são centros de reação, aquelas crenças que se estabelecem na mente humana e que acabam por distraí-la e dirigi-la se não forem apaziguadas, por terem a qualidade do irrequieto movimento incessante. Mas, o que quer ser apaziguado durante o sono profundo?

Avanço devagarinho. Por hoje apenas compartilho um dado que pode oferecer uma luz inicial: a ciência do yoga, com a sua percepção dos corpos sutis, propõe que, para além do corpo energético que só nos abandona no processo da morte, outras camadas e dimensões nos envolvem e permeiam, desdobrando-se sucessivamente para incluir a alma e o espírito. Elas incluem pensamento e emoção, e seriam desligadas sim, durante o sono profundo, propiciando ao cérebro físico e a toda a fisiologia algo como o esquecimento temporário da sua experiência do viver, para que a restauração celular possa acontecer em todos os níveis sem a intervençãoo constante do sentir e do pensar, graças à força vital do diligente corpo energético, o pranamayakosha.

Deixo aqui registrada essa primeira etapa de busca de entendimento. Vencida a insônia, o mistério continua acenando: seria possível apaziguar esse vritti e prescindir do sono? Sim, porque apaziguar os vrittis é a própria definição do yoga. Confio que uma compreensão mais ampla está por vir. Saberei reconhecer a resposta quando ela se apresentar.