Ao buscar conexão e memória do que SOU e de quem SOU, deixando para trás por um curto momento os afazeres diários, como se esse abençoado instante fosse uma pausa respiratória, uma ponte de arco-íris para um estar aqui diferente e mágico, eis que lembro de Jaime e suas aulas de tai-chi-chuan, – que os puristas perdoem a grafia -, que frequentei durante um bom tempo. Memória celular de energia benevolente nos muitos corredores do meu passado. Silêncio, recolhimento, imersão, prazer.
Jaime nos conduzia em ritmo contínuo e estável, sem pressa, ensinando a sentir entre as palmas das mãos a energia que permeia o universo, e dela cuidar suavemente como que segurando uma esfera pulsante que se dilata sem pressa, à medida que o corpo mergulha no movimento que é só repouso. As mãos desenham no espaço à frente a figura do oito deitado, símbolo do infinito, alternando a posição sem jamais se desprender da crescente energia generosamente gerada pela força cósmica e sustentada pela minha intenção e atenção.
O movimento enraíza pela força dos pés em contato com a terra, que o faz fluir ascendendo até os braços, usando a força muscular das pernas sem rigidez, os joelhos levemente flexionados para não travar a corrente que quer inundar; a sensação é a de um corpo se vergando suavemente qual bambu ao vento, como que aceitando sem mágoas as vicissitudes da vida que nos fortalecem.
Ao sentir que já basta, Jaime ensinava a recolher toda essa energia, o chi, e trazê-la para o ventre, dirigindo a esfera vibrante para o ponto localizado a uns quatro dedos abaixo do umbigo. Formada em yoga, penso logo nos chakras, e é para eles que acabo levando esse prana pulsante, pedindo ao universo que fortaleça o amor, a capacidade de comunicação e a sabedoria.
Jaime tem sangue chinês. Ele dizia mais ou menos assim: não olhe o mundo com olhos muito abertos, querendo vorazmente abocanhá-lo. Recolha o olhar e apenas receba o cosmo e a si mesmo nele inserido. Dessa forma é o mundo que chegará em você, que é parte intrínseca dele; não desperdice a sua valiosa energia numa troca indiscriminada, permitindo inadvertidamente deixar-se invadir pela fragmentação da multiplicidade que ameaça esfacelá-lo e fazê-lo esquecer do que há de divino em você. Mantenha-se íntegro para poder compartilhar a sua energia e a sua compaixão.
Talvez seja por isso que os orientais desenvolveram olhos rasgados: fica mais fácil não olhar para fora, onde tudo nos distrai. É o que propõe Patanjali na quinta das oito etapas do caminho do yoga: no pratyahara queremos o recolhimento do olhar, da escuta, do olfato e do paladar, e mesmo do toque, em direção ao silêncio dos cinco sentidos a ser experimentado e curtido. Se já temos alguma sustentação vinda de reforma íntima amorosa e acolhedora de todas as inquietações, algo ali dentro quer mover-se para aquém, ou quiçá além, do mundo que nos rodeia. Poucos minutos por dia, primeiro passo seguro na direção da meditação. Silêncio é chegar em casa e tirar os sapatos, estar ao abrigo, e talvez nem saibamos de quê. Não importa. Recolher o olhar sob a pálpebra preguiçosa. Respirar, pulsar e vibrar, só notar o círculo virtuoso que emerge sem pressa: o pulsar relaxa, e o relaxamento permite perceber e receber o pulsar. Expando para um horizonte que perde a razão de ser chamado assim, porque dissolve na infinitude.