As décadas avançam, e o sono recua. Uma jornada que vale a pena viver.
Busco causas e soluções. O senso comum diz que é assim mesmo, onde já se viu velho dormindo bem? Recebo um tapinha amistoso nas costas, “bem vinda ao clube!”
Mas sou teimosa por natureza, com traços de uma antiga raiva impulsiva inata que com os anos aprendi a apaziguar. Ou talvez só esteja educadamente disfarçando. Ainda assim, escrevo aqui, mais uma vez, na sincera intenção de compartilhar experiências para, quem sabe, servir de apoio àqueles que estejam vivendo situações semelhantes.
Habito um lugar francamente exposto à natureza, conforme a minha escolha pessoal. Eis que, de um dia para o outro, em clima de tempestades e enchente local, dei-me conta da força intimidante dessa mesma natureza, que nem sempre se dá por satisfeita com brisa branda, chuva mansa, sol ameno e mar sereno, verdes matas e sombra fresca, coração e mente em paz, mantra esse que entoo com frequência desde então.
Na ocasião, alvoroçadas, as minhas moléculas da emoção puseram-se a trabalhar, ativando a produção dos neurotransmissores que teoricamente me garantem forças para lutar ou fugir. Ou ainda, congelar debaixo da cama, ou pelo menos debaixo dos cobertores, tiritante, derradeira trincheira de proteção, imaginária e frágil, mas que me remetia ao consolo da infância.
Naquele momento, apostei forte na imaginação, esse poder divino e criativo que nos é dado, de graça. Mas a fé foi pouca e o resultado foi pífio; restou-me um tantinho de trauma, suficiente para impedir seriamente o sono tranquilo que sempre prezei.
A terapeuta diagnosticou, bingo, glândulas adrenais em convulsão. Receitou-me uma temporada de gotinhas diversas, já que me recusei a recorrer ao comprimidos de praxe.
Passei a pesquisar, sobretudo dentro de mim, a origem desse medo insano de ver arrancado o telhado que me cobre a cabeça ficando à mercê de intempéries implacáveis como ventos uivantes e tsunamis. Lembrei de pesadelos infantis recorrentes, como se eu já tivesse vivido dilúvios ou mesmo aquele tal, o de Noé. Como saber se não foi esse o trauma original, não só meu como de boa parte da humanidade?
Intempéries se alojam no inconsciente coletivo com facilidade. Lembrei também de ter lido as aventuras de Asterix e Obelix com enorme prazer, pelo fino senso de humor e conhecimento da alma humana que os seus autores fazem transparecer, tanto em palavras como em imagens. Identifiquei-me com a valente aldeia gaulesa, cujo único medo coletivo era o de que o céu lhes caísse sobre as cabeças…
Voltando ao sono perdido, ele me propiciou descobertas fascinantes, como por exemplo jeitinhos surpreendentes de resolver problemas dormindo… Em breve, neste espaço de leitura.