O véu de maya ainda é denso. Maya mede, e assim, na medida própria do homem e da mulher, transmite segurança e proteção dentro do construto cuidadosamente armado pela vida afora. Ali, suponho pisar e avançar no que é de fato conhecido e reconhecido, mastigado e aprovado, testemunhado e confirmado por aqueles em que confio. Ou confiava.
Por quanto tempo ainda? Olho ao redor e não reconheço velhos sonhos e antigas certezas. Em dias ruins, de vibração nefastamente presa ao véu, de mau humor apenas educadamente contido, só vislumbro hostilidade, absurdo, incongruência na melhor das hipóteses, em mim, nos outros, um desconforto subliminar sugando a valiosa energia de que disponho para encaminhar a minha intenção na direção daquele ponto luminoso, rutilação indefinida que insiste em manifestar-se como informação e percepção compassiva, e, sobretudo, como espaço possível em que a minha experiência pode somar-se à do outro, aquele tão próximo de mim, para clarear e iluminar.
O véu se esgarça de mansinho. O olhar ainda é nublado, e quero afastar a névoa de uma catarata sorrateira que insiste em borrar a luz. Eis que a insistência da presença do pequeno clarão me faz prestar atenção. Onde está o enigmático ponto de luz, às vezes singular, às vezes infinitamente múltiplo? Descubro que ele se move, se expande e se contrai, porém à minha revelia. Não tenho –ainda– poder sobre a intensidade do seu brilho.
Ainda. Porque se ele me preenche e me rodeia, desconfio que faz parte de mim.