Suave Oculto Sutil

Vrttis, eis as formas pensamento que brotam da sopa de emaranhados cósmicos, coletivos ou singulares, e que adquirem realidade pela atenção que recebem, porque a minha mente as particulariza segundo a minha experiência passada consciente ou inconsciente. A qualidade da atenção que lhes dispensarei vai depender dos estados que essa forma pensamento específica evoca, pode ser prazer, ou posse, ou prestígio, ou poder. Ou a ausência deles, a dor. Ou a mera sobrevivência, ou quiçá a difícil ou até impossível busca pela paz. Porque estar em paz é o que o vrtti parece querer impedir.

Estar em estado vrtti significa que a mente dita as regras: sou um eu, um ego, estou isolado no mundo, largamente em oposição ao meu entorno. A minha sobrevivência depende do que conseguir adicionar ao meu ser buscando fora de mim e bravamente empregando o que percebo serem os meus talentos. Minhas ideias, meus pensamentos, minha capacidade, minha inteligência, meu preparo, conhecimento, persistência, esforço, vontade, fôlego. O euzinho sendo forte e corajoso em modo competição o tempo todo. Por vezes também me vejo dependendo da sorte, ou até da benevolência de Brahman, Jahve, Allah, o Grande Espírito, ou Deus. Mas tudo está lá fora. Aparentemente.

Patanjali, entidade chegada a explicar o ser humano para os humanos utilizando os caminhos do yoga, descreve com conhecimento refinado esse estado mental, do qual nem todos se dão conta. É um estado múltiplo e diversificado, ora agitado e nervoso, ora rígido e encaixotado, que corre perigo de perder o rumo e o objetivo, por ser adquirido e condicionado. 

O condicionado vincula-se à condição, que é uma de infinitas possibilidades de realidade. Cria-se a teimosa certeza de que as preciosas formas-pensamento do meu estado mental são as que manifestam a minha identidade, a minha pessoa, aquilo que sou, para o outro e portanto para mim também. Acabo acreditando nelas, por inércia. 

Imagino ainda que, se eu tenho, ao outro faltará, e vice-versa. Assim, não há outra saída, cansativa por sinal: tenho de escolher o tempo todo. Escolho, é claro, segundo a condição em que me encontro. Ainda não desconfio que é esse o meu verdadeiro ponto cego, difícil de descobrir e desvelar e desvendar porque penso que é isso que sou, a identidade aparentemente tão necessária para funcionar no mundo. Sonho que é nela que finalmente encontro paz. Mas esqueço que, sendo condicionada, a paz que almejo também vai depender de uma série de condições.

Estarei em paz… e já tropeço: estarei em paz desde que as pessoas, os objetos, os eventos e os fatos miúdos do meu cotidiano puderem alinhar-se à estrutura condicionada que escolhi adotar e comprar e vestir, segundo o circuito de fiação neural que a biologia instalou no meu cérebro seguindo as particularizações que a minha mente, com todos os seus vrttis, foi criando. Desde sempre, e vida após vida após vida. 

Não me percebo sem a ajuda do outro, que me espelha e reflete para mim o que nego ser. Pacientemente, a repetição do ter de lidar com o que não quero vai cavando aqui e sedimentando ali, corrigindo os circuitos até que a luz me faça enxergar. Desapego da condição aqui e lá, alguma circunstância dolorida me penaliza para mostrar que posso aprender afinal, que posso deixá-la ir embora para morrer na praia. 

Patanjali aponta para o estado de nirodhah, em que vrttis pacificados e harmonizados, curados e perdoados, transmutam para fazer parte da harmonia compartilhada do Universo. De repente, nenhum esforço, nenhuma perda de energia, nenhuma dor no desapego daquilo que já foi tão importante.

Força interior não é a personalidade cuidadosamente esculpida e sim a conexão que colabora com o Divino misterioso e que sabe que em troca receberá tudo que necessita, porque o Universo, do qual faço parte, é tão sabiamente abundante, que mais cedo ou mais tarde me fará entender que quanto mais dou, mais recebo.

A paz do Eu Sou é a contrapartida divina: a pequena mente alvoroçada, agora em nirodhah, apaziguada pela percepção crescente de uma Grande Mente comum a todos. O Eu, sob nova direção, que não mais se eleva para ser maior ou melhor, que não mais se rebaixa para ser menor ou pior, o Eu que apenas É, e que na sua identidade essencial participa, alegre e brincalhão, da vida abundante que não tira pedaço nem de mim, e nem do outro. A dádiva de ser quem sou que ofereço ao mundo.

Eis o que é a nossa consciência, citta. A ciência de ponta, que ainda não chegou a informar amplamente o coletivo, ensina que ela, a consciência, citta, pode funcionar nos seus estreitos 4% de polarização percebida, de certo e de errado, de bom e de mau, de preto e de branco. Os citta vrtti. Mas ela pode também saltar, tal qual uma partícula subatômica atrevida e curiosa, para expandir-se e aventurar-se nos restantes 96% de um Universo de possibilidades inimagináveis.

Após um tempinho de adaptação, aprendo a navegar a temida flutuação do Universo sem susto. Se escolho o amor, resolvo a extenuante tarefa de escolher, porque todas as outras escolhas, grandes e pequenas, se tornam desnecessárias.

Humanizo o divino e divinizo o humano. É a minha função. 

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